Querido,
Me faltou coragem. Por isso escrevi, em vez de falar. Você me machucou tanto, que nunca pensei que fosse de verdade. Cheguei a pensar que em algum momento você iria dizer: acabou, era tudo brincadeira! Vamos ser felizes, agora? Mas você teve medo. O que iria acontecer depois? Te digo que eu não sei. E não importa. O primeiro passo é se permitir. Se permitir se entregar e receber a entrega do outro. E jurei tanto que não iria me entregar, que tinha o controle da situação, mas já era tarde. Estou apaixonada. E você disse que estava também. Isso de alguma forma significou reciprocidade, mas não era. E a única coisa que eu quero muito saber é: por que você mentiu prá mim? Teve pena de mim, só pode ter sido isso. Mas continuou na mentira, e isso é muito pior. Roubou alguns beijos, ligou, mandou mensagem, me fez acreditar que estavamos diante de uma centelha de um possível amor. Amor que precisava ser permitido para acontecer. Uma parte permitiu e a outra não. Você apenas permitiu idealizar e vive daquele espectro que foi o passado. Você é uma cara tão decente, tão transparente, ouso dizer ingênuo, às vezes. Não usa máscara de jeito maneira. Nunquinha. E, no entanto, insiste em ir atrás dela.
Não queria ouvir que você era apaixonado por mim. Queria a verdade, ou ao menos, a honestidade. Não tive. E doeu tanto. E dói tanto. Mas vai passar. Não consigo, no entanto, desejar que você seja feliz. Sim, desculpe, é uma fraqueza minha. Mas não consigo. Quero que você se ferre bastante. E que sinta bastante dor também. E que essa dor da alma extravaze e se torne uma dor física. Na garganta. Ou no dente. Como as minhas dores de ontem e de hoje. Meu cotovelo dói bastante também. Mas esse acho que foi mal jeito.
Prefiro sofrer na verdade, do que viver na mentira. Pense nisso.
Sem mais.
ENCONTRO DAS PALAVRAS
Terça-feira, 26 de Maio de 2009
Domingo, 10 de Maio de 2009
Sentir-se vivo
Tinha uma rosa nas mãos, embrulhada naqueles papéis de gosto duvidoso, mas que todas as floriculturas gostam e usam. Era a autêntica dama de vermelho. Trajava um vetido inteiriço, de crepe e três saiotes, todo vermelho. Vermelho carmim, vermelho fogo. As meias eram cor da pele, para apenas disfarçar as marcas do tempo, que não são aparentes apenas no rosto, nas óbvias rugas, mas no corpo todo. Os cabelos, cinzentos, quase brancos. Batom rosa na boca, lápis preto no olho, brincos iguais ao colar, de pérolas compradas na Galeria Pajé, e um sapato preto com 4 centímetros de salto. Estava no ponto de ônibus do corredor da Av. Francisco Matarazzo. Devia ter uns 70 anos. Ou mais. Senti pena num primeiro momento. Onde ela estaria indo? Porque, apesar de bem vestida, produzida, parecia tão abandonada?
E, absorta nesses pensamentos, presenciei uma das cenas mais bonitas, mais singelas, mais puras. Ao virar um pouco mais a cabeça para o lado esquerdo, notei um Monza 89, um pouco atrás de onde eu estava. O semáforo estava no vermelho. E, quando atentei para aquele homem, de 70 anos, ou mais, ele estava flertando com a senhora do ponto de ônibus. Olhava para aquela mulher, muito mais do que desejo, era a sensação de estarem vivos que estava latente. Ativos. Eu fitei aquela cena por alguns minutos, e, de tão sincera e bonita aquela descoberta diante de meus olhos, não queria que acabasse nunca. Queria ver se ela iria até o carro para falar com ele. Ou ele a convidaria para um passeio. A troca de olhares aconteceu, ela notou que estava sendo paquerada, se arrumou diante do pretendente, cheirou a flor, se debruçou sobre o gradil do corredor de ônibus, fingindo não estar nem aí. Ele, colocou o cotovelo para força e encarou-a na cara larga, como dizem por aí. Mas a necessidade do momento não era de uma paixão latente, um amor para recordar. A necessidade objetivamente foi cumprida: a sensação de estar vivo. O sinal abriu. O carros começaram a andar. Ela ficou no ponto de ônibus. Ele fechou o vidro do monza e saiu. O encontro nunca aconteceu. Mas como tinha vida naqueles olhares. Como pode haver tanta vida em alguns minutos banais.
E, absorta nesses pensamentos, presenciei uma das cenas mais bonitas, mais singelas, mais puras. Ao virar um pouco mais a cabeça para o lado esquerdo, notei um Monza 89, um pouco atrás de onde eu estava. O semáforo estava no vermelho. E, quando atentei para aquele homem, de 70 anos, ou mais, ele estava flertando com a senhora do ponto de ônibus. Olhava para aquela mulher, muito mais do que desejo, era a sensação de estarem vivos que estava latente. Ativos. Eu fitei aquela cena por alguns minutos, e, de tão sincera e bonita aquela descoberta diante de meus olhos, não queria que acabasse nunca. Queria ver se ela iria até o carro para falar com ele. Ou ele a convidaria para um passeio. A troca de olhares aconteceu, ela notou que estava sendo paquerada, se arrumou diante do pretendente, cheirou a flor, se debruçou sobre o gradil do corredor de ônibus, fingindo não estar nem aí. Ele, colocou o cotovelo para força e encarou-a na cara larga, como dizem por aí. Mas a necessidade do momento não era de uma paixão latente, um amor para recordar. A necessidade objetivamente foi cumprida: a sensação de estar vivo. O sinal abriu. O carros começaram a andar. Ela ficou no ponto de ônibus. Ele fechou o vidro do monza e saiu. O encontro nunca aconteceu. Mas como tinha vida naqueles olhares. Como pode haver tanta vida em alguns minutos banais.
Terça-feira, 7 de Abril de 2009
Sobre transtornos em qualquer idade
Chamaram mamãe de novo no colégio. Não conseguia fazer aquele exercício de matemática e a professora perdeu a paciência comigo, depois que perguntei pela 14ª vez, porque o delta era simbolizado por um triângulo.
- É apenas um símbolo.
- Mas poderia ser um quadrado então, não poderia?
- Já chega! - gritou, e num sussurro - Você é um garoto estranho mesmo...
Todos riram. Me senti humilhado. Como quando você erra o chute na cara do gol, depois de um passe perfeito. Ou quando vai tirar a garota prá dançar e recebe uma negativa na frente de todo mundo. O Cabelo, que por sinal era a pessoa mais desprezível do colégio, sentava bem ao meu lado. Veio e falou, baixinho:
- Imbecil!
E cuspiu na minha cara.
Perdi as estribeiras. Levantei, peguei minha cadeira e joguei na cabeça dele. Era para machucar. E machucou. Ele desmaiou e os cabelos se tingiram de vermelho em poucos minutos. Fiquei parado, atônito. E fui levado para a diretoria.
Duas vezes por semana, mamãe era chamada na escola. Eu tinha DDA (Distúrbio do Déficit de Atenção ou TDA (só que aí troca Distúrbio por Transtorno), mas não era com Hiperatividade, e ninguém me entendia nunca. Tinha dificuldades em me concentrar naquela aula chata de matemática ou no falatório que era a aula de História. Era o professor começar: "Antonio Conselheiro foi como ficou conhecido na Guerra de Canud..." e logo já pensava que tinha futebol às 16 horas no campinho perto de casa e que o Mauricio ia me ligar prá gente andar de bicicleta e que a Julia topou tomar sorvete comigo depois da aula. Coisas tão mais úteis do que aquela história de Guerra que teve até Conselheiro e Canudo no meio. Minhas perguntas eram sempre desprezadas pelos meus colegas e eu era sistematicamente ridicularizado pelos professores.
- Você tem que tomar jeito, menino - era o que minha mãe sempre dizia
- Mas o professor acha que estou tirando sarro, mas, mas é dúvida mesmo...
- O professor sempre tem razão. Dizem que seus colegas sempre riem do que diz, se quer ser palhaço vou te colocar num circo.
- Mas mãe...
- Cala a boca, menino, antes que eu perca o resto de paciência que me resta.
Era o discurso pronto, de sempre. Eu gostava mesmo é de jogar conversa fora. O Seu Antenor, um velhinho simpático, vizinho de casa, era o meu principal interlocutor. Adorava ouvir suas histórias. E ele queria sempre saber das minhas. Falávamos de tudo: das estrelas, do movimento dos astros, de futebol, dos mecanismos da correia dentada, da teoria da relatividade e da lei da gravidade.
- Você é um incompreendido, garoto.
Eu não entendia direito o que o Seu Antenor queria dizer, quando me dizia aquilo, mas, de certa forma, aquelas palavras me traziam consolo.
Naquela manhã, mamãe chegou na escola cheia de pressa. Eu já estava a sua espera na sala da diretoria. Pelo ar grave, percebi que, dessa vez, não sairia barato. Quando nos encontramos ela me fez um aceno e me fuzilou com o olhar. Se aproximou, me deu um beijo na testa e apertou forte meu braço direito. Sussurrou alguma coisa que eu não consegui ouvir, porque bem naquela hora, na janela do diretor, pousou um bem-te-vi e começou a cantar. E eu adoro pássaros, e eu adoro bem-te-vis. São simpáticos. Dentro da sala, era um blá-blá-blá que não terminava mais.
- Entendo os problemas que você passa tendo um filho como ele, mas ele extrapolou todos os limites do bom senso e do convívio social.
Opa! Estão falando de mim.
Minha mãe aumentou o tom de voz:
- Você está insinuando que meu filho é um assassino em potencial? Foi coisa de criança, não percebe?
O diretor aumentou mais ainda.
- A permanência dele na escola é insustentável. Sendo assim, peço que a senhora procure outra instituição de ensino.
Minha mãe abaixou a cabeça e consentiu. E o caso foi dado por encerrado. Nem se despediu. Ela me pegou pela mão esquerda e foi me puxando para fora da sala e em seguida para fora do colégio. Notei que no canto do seu olho direito, uma lágrima, tímida, escorria bem devagar.
- O que foi mãe?
- Nada, filho. A conversa vai ser lá em casa.
Estava trêmula, com os olhos baixos e humilhados. E senti um ódio em suas palavras.
Entramos no carro. Passados alguns minutos, não me contentei e puxei assunto de novo.
- O que o diretor disse, afinal?
- Que você não pode mais estudar nessa escola. E sabe por que? Porque jogou uma cadeira no seu coleguinha, que foi para o hospital com suspeita de traumatismo craniano.
- Ah, mas o Cabelo bem que merecia...
- Quieto! Bico calado! Não é prá você falar, eu que falo agora - um silêncio - O que faço com você? - e começou a chorar - Vamos, me responda, você não é sabichão? Que tem resposta prá tudo?
Continuou dirigindo, entre soluços. Chorava mais e mais. E me senti muito mal em ver mamãe daquele jeito. A culpa era toda minha.
- Tenho vontade de te bater até você sangrar...
Senti medo. Mas alívio. Porque se ela me batesse, ao menos a culpa estaria um pouco eximida. Deu três murros no volante, parou o carro na guia à direita, baixou a cabeça e chorou. Até secar. E continuamos o caminho para casa. E nada mais foi dito. E percebi que demoraria muito tempo para mamãe nunca mais chorar daquele jeito. Lá prá quando eu tivesse uns 18, 19 anos, quem sabe?
- É apenas um símbolo.
- Mas poderia ser um quadrado então, não poderia?
- Já chega! - gritou, e num sussurro - Você é um garoto estranho mesmo...
Todos riram. Me senti humilhado. Como quando você erra o chute na cara do gol, depois de um passe perfeito. Ou quando vai tirar a garota prá dançar e recebe uma negativa na frente de todo mundo. O Cabelo, que por sinal era a pessoa mais desprezível do colégio, sentava bem ao meu lado. Veio e falou, baixinho:
- Imbecil!
E cuspiu na minha cara.
Perdi as estribeiras. Levantei, peguei minha cadeira e joguei na cabeça dele. Era para machucar. E machucou. Ele desmaiou e os cabelos se tingiram de vermelho em poucos minutos. Fiquei parado, atônito. E fui levado para a diretoria.
Duas vezes por semana, mamãe era chamada na escola. Eu tinha DDA (Distúrbio do Déficit de Atenção ou TDA (só que aí troca Distúrbio por Transtorno), mas não era com Hiperatividade, e ninguém me entendia nunca. Tinha dificuldades em me concentrar naquela aula chata de matemática ou no falatório que era a aula de História. Era o professor começar: "Antonio Conselheiro foi como ficou conhecido na Guerra de Canud..." e logo já pensava que tinha futebol às 16 horas no campinho perto de casa e que o Mauricio ia me ligar prá gente andar de bicicleta e que a Julia topou tomar sorvete comigo depois da aula. Coisas tão mais úteis do que aquela história de Guerra que teve até Conselheiro e Canudo no meio. Minhas perguntas eram sempre desprezadas pelos meus colegas e eu era sistematicamente ridicularizado pelos professores.
- Você tem que tomar jeito, menino - era o que minha mãe sempre dizia
- Mas o professor acha que estou tirando sarro, mas, mas é dúvida mesmo...
- O professor sempre tem razão. Dizem que seus colegas sempre riem do que diz, se quer ser palhaço vou te colocar num circo.
- Mas mãe...
- Cala a boca, menino, antes que eu perca o resto de paciência que me resta.
Era o discurso pronto, de sempre. Eu gostava mesmo é de jogar conversa fora. O Seu Antenor, um velhinho simpático, vizinho de casa, era o meu principal interlocutor. Adorava ouvir suas histórias. E ele queria sempre saber das minhas. Falávamos de tudo: das estrelas, do movimento dos astros, de futebol, dos mecanismos da correia dentada, da teoria da relatividade e da lei da gravidade.
- Você é um incompreendido, garoto.
Eu não entendia direito o que o Seu Antenor queria dizer, quando me dizia aquilo, mas, de certa forma, aquelas palavras me traziam consolo.
Naquela manhã, mamãe chegou na escola cheia de pressa. Eu já estava a sua espera na sala da diretoria. Pelo ar grave, percebi que, dessa vez, não sairia barato. Quando nos encontramos ela me fez um aceno e me fuzilou com o olhar. Se aproximou, me deu um beijo na testa e apertou forte meu braço direito. Sussurrou alguma coisa que eu não consegui ouvir, porque bem naquela hora, na janela do diretor, pousou um bem-te-vi e começou a cantar. E eu adoro pássaros, e eu adoro bem-te-vis. São simpáticos. Dentro da sala, era um blá-blá-blá que não terminava mais.
- Entendo os problemas que você passa tendo um filho como ele, mas ele extrapolou todos os limites do bom senso e do convívio social.
Opa! Estão falando de mim.
Minha mãe aumentou o tom de voz:
- Você está insinuando que meu filho é um assassino em potencial? Foi coisa de criança, não percebe?
O diretor aumentou mais ainda.
- A permanência dele na escola é insustentável. Sendo assim, peço que a senhora procure outra instituição de ensino.
Minha mãe abaixou a cabeça e consentiu. E o caso foi dado por encerrado. Nem se despediu. Ela me pegou pela mão esquerda e foi me puxando para fora da sala e em seguida para fora do colégio. Notei que no canto do seu olho direito, uma lágrima, tímida, escorria bem devagar.
- O que foi mãe?
- Nada, filho. A conversa vai ser lá em casa.
Estava trêmula, com os olhos baixos e humilhados. E senti um ódio em suas palavras.
Entramos no carro. Passados alguns minutos, não me contentei e puxei assunto de novo.
- O que o diretor disse, afinal?
- Que você não pode mais estudar nessa escola. E sabe por que? Porque jogou uma cadeira no seu coleguinha, que foi para o hospital com suspeita de traumatismo craniano.
- Ah, mas o Cabelo bem que merecia...
- Quieto! Bico calado! Não é prá você falar, eu que falo agora - um silêncio - O que faço com você? - e começou a chorar - Vamos, me responda, você não é sabichão? Que tem resposta prá tudo?
Continuou dirigindo, entre soluços. Chorava mais e mais. E me senti muito mal em ver mamãe daquele jeito. A culpa era toda minha.
- Tenho vontade de te bater até você sangrar...
Senti medo. Mas alívio. Porque se ela me batesse, ao menos a culpa estaria um pouco eximida. Deu três murros no volante, parou o carro na guia à direita, baixou a cabeça e chorou. Até secar. E continuamos o caminho para casa. E nada mais foi dito. E percebi que demoraria muito tempo para mamãe nunca mais chorar daquele jeito. Lá prá quando eu tivesse uns 18, 19 anos, quem sabe?
Quinta-feira, 19 de Março de 2009
Mãos
Quando eu olhava para ele, só via uma mão. Na verdade, duas mãos. Um par de mãos perfeito. Tinha os dedos longos e grossos, mas não grosseiros, e o espaço entre eles era simétrico. Pêlos na medida certa, unhas bem cortadas, rente a ponta do dedo, que era levemente arredondada. As linhas da palma da mão era bem desenhadas, fundas e claras. Eram mãos expressivas.
Tudo que fazíamos tinha que ter a mão dele. Adorava passear no parque, porque as mãos dele ficavam segurando firme as minhas. Tomar sorvete, refrigerante, vinho, vitaminado ou cerveja, era sempre uma experiência incrível. Ficava fitando o movimento das mãos: os dedos se aproximando do copo, fazendo pressão contra a parede suada daquele copo, se unindo e finalmente fazendo uma pequena força para sustentar o recipiente e leva-lo a boca. E aí as mãos ficavam próximas da boca. E eu queria que a cena se congelasse. Mãos e boca, que mais um homem precisa ter nessa vida?
Não gostava de ve-lo jogando futebol. Nada contra o jogo, pelo contrário, até me agrada bastante. Mas em se tratando daquelas mãos, elas não poderiam ficar abandonadas ao lado do calção por 90 minutos. As mãos no futebol ficam bobas, em segundo plano. Gostava mesmo é de vôlei. Nessa modalidade sim as mãos eram protagonistas. E ficava na arquibancada a observar o movimento das mãos dele. Os sets passavam sem que eu percebesse e eu sempre queria mais.
Mas o que mais gostava era do toque daquelas mãos. Era pesado na medida certa. Os dedos de movimentavam com fluidez, mas sem nervosismo. Tinha carinho e desejo. E as mãos passeavam por todo o meu corpo. E por dentro dele também. E era simplesmente fantástica aquela sensação.
Aquelas mãos precisavam de um seguro exclusivo, para protege-las, mante-las intactas. Tentei convencê-lo a fazer uma previdência para aquelas mãos. Para quando fossem envelhecendo, fossem ficando cansadas, vai que elas necessitem de algum reparo?
Ele não gostou nada da ideia. Me acusou de maluca e me deixou de mãos abanando. Tive direito a um último pedido: peguei uma lata de tinta e pedi que ele mergulhasse aquelas mãos sagradas dentro, pressionando-as sobre uma folha de papel.
Não tenho mais as mãos. Tudo que tenho são lembranças e aquela imagem. E quando olho para aquelas mãos marcadas no papel, bate uma saudade.
Tudo que fazíamos tinha que ter a mão dele. Adorava passear no parque, porque as mãos dele ficavam segurando firme as minhas. Tomar sorvete, refrigerante, vinho, vitaminado ou cerveja, era sempre uma experiência incrível. Ficava fitando o movimento das mãos: os dedos se aproximando do copo, fazendo pressão contra a parede suada daquele copo, se unindo e finalmente fazendo uma pequena força para sustentar o recipiente e leva-lo a boca. E aí as mãos ficavam próximas da boca. E eu queria que a cena se congelasse. Mãos e boca, que mais um homem precisa ter nessa vida?
Não gostava de ve-lo jogando futebol. Nada contra o jogo, pelo contrário, até me agrada bastante. Mas em se tratando daquelas mãos, elas não poderiam ficar abandonadas ao lado do calção por 90 minutos. As mãos no futebol ficam bobas, em segundo plano. Gostava mesmo é de vôlei. Nessa modalidade sim as mãos eram protagonistas. E ficava na arquibancada a observar o movimento das mãos dele. Os sets passavam sem que eu percebesse e eu sempre queria mais.
Mas o que mais gostava era do toque daquelas mãos. Era pesado na medida certa. Os dedos de movimentavam com fluidez, mas sem nervosismo. Tinha carinho e desejo. E as mãos passeavam por todo o meu corpo. E por dentro dele também. E era simplesmente fantástica aquela sensação.
Aquelas mãos precisavam de um seguro exclusivo, para protege-las, mante-las intactas. Tentei convencê-lo a fazer uma previdência para aquelas mãos. Para quando fossem envelhecendo, fossem ficando cansadas, vai que elas necessitem de algum reparo?
Ele não gostou nada da ideia. Me acusou de maluca e me deixou de mãos abanando. Tive direito a um último pedido: peguei uma lata de tinta e pedi que ele mergulhasse aquelas mãos sagradas dentro, pressionando-as sobre uma folha de papel.
Não tenho mais as mãos. Tudo que tenho são lembranças e aquela imagem. E quando olho para aquelas mãos marcadas no papel, bate uma saudade.
Quarta-feira, 11 de Março de 2009
O medo do juízo
Ele gostava tanto dela. E ela dele. Mas nem um, nem outro confessariam tal desatino em sã consciência. Sequer sob pena de serem torturados. Era o irrealizável. E isso tornava aquele sentimento mais interessante ainda.
O proibido é desafiador. E ponto. Mas o irrealizável, além de desafiador, traz uma angustia em sua condição. Uma fatalidade. E a ideia que fica é de que, se concretizado, seria irretocável.
Bobagem?
O que os outros iriam pensar? Ou, pior ainda, o que os outros iriam dizer? Ela vivia num mundo de convenções, no qual a opinião do outro sobre suas escolhas pesava muito. Era quase sempre determinante. Ele tentava escapar disso, mas apenas na teoria. Na prática, era talvez até mais preocupado com as convenções, a moral e as regras.
Eles se encontravam, muitas vezes. Conversavam, poucas.
Aquela situação era insustentável para ela, no entanto, administrável para ele. E ele foi levando. E ela foi sofrendo. E ele foi negando. E ela foi pressionando. E ele se esquivava. E ela ficou doente. Talvez do coração, talvez da carcaça mesmo. E ele percebeu o quanto era tolo. E aquela situação se esvaiu. E ela trocou de plano. E ele tomou coragem.
Mas aí, então, já era tarde. Deitou, e foi sonhar.
O proibido é desafiador. E ponto. Mas o irrealizável, além de desafiador, traz uma angustia em sua condição. Uma fatalidade. E a ideia que fica é de que, se concretizado, seria irretocável.
Bobagem?
O que os outros iriam pensar? Ou, pior ainda, o que os outros iriam dizer? Ela vivia num mundo de convenções, no qual a opinião do outro sobre suas escolhas pesava muito. Era quase sempre determinante. Ele tentava escapar disso, mas apenas na teoria. Na prática, era talvez até mais preocupado com as convenções, a moral e as regras.
Eles se encontravam, muitas vezes. Conversavam, poucas.
Aquela situação era insustentável para ela, no entanto, administrável para ele. E ele foi levando. E ela foi sofrendo. E ele foi negando. E ela foi pressionando. E ele se esquivava. E ela ficou doente. Talvez do coração, talvez da carcaça mesmo. E ele percebeu o quanto era tolo. E aquela situação se esvaiu. E ela trocou de plano. E ele tomou coragem.
Mas aí, então, já era tarde. Deitou, e foi sonhar.
Quinta-feira, 19 de Fevereiro de 2009
Anedota de uma mulher (in)dependente
Sempre fui uma mulher muito independente. Aos 14 anos arrumei meu primeiro emprego. À revelia, mas só de minha mãe. Meu pai desaprovava, mas no fundo bem que gostava, porque todo mês 10% do meu salário ia para cobrir despesas da casa. Como prestador de serviçoes, ele passou a trabalhar cada vez menos. Minha vontade era colocarr uma mochhila nas costas, mandá-lo à merda e cair na vida. Mas ainda não era a hora.
Fiz uma poupança com a grana que juntei dos 14 aos 18 anos e consegui comprar um carro no dia do meu aniversário de 19 anos. Era o símbolo da independência. Mas eu queria mais.
Ingressei na faculdade, mas continuei trabalhando e, agora, ganhando um pouco melhor. Aos 20 anos atingi o ápice da subsistência para uma recém-saída da adolescência: fui morar sozinha. E totalmente auto-suficiente. Aluguel, internet, água, luz, telefone: tudo por minha conta e risco. Mas eu queria mais. Me sentia vazia e inútil, por vezes, só. Ainda que cercada de gente, só.
E veio a depressão. Cheguei a achar que era isso o que faltava para que eu chegasse a plenitude da independência. Afinal, uma mulher independente tem problemas que precisa resolver sozinha, sofre pressões, passa por estresse, que culminam em depressão.
Mas eu queria mais.
Um dia tomei várias cartelas de calmantes e deitei. Tudo ficou preto e, depois, azul. E senti uma paz. Acordei, vomitei e fui passear. Foi então que eu o encontrei. Da troca de olhares para a cama foi um piscar de olhos, afinal, eu era uma mulher independente e bem resolvida, e deveria sanar minhas vontades sem sentir culpa. Começamos a namorar e decidi chamá-lo para morar comigo, situação aceita apenas por mulheres independentes. A maioria quer casar, véu, grinalda e toda pompa e circunstância. Mas eu, não.
Aos poucos fui gastando cada vez mais tempo na cozinha do que na academia, mais tempo lavando e passando roupa do que indo ao cinema, mais tempo varrendo a casa do que trabalhando fora. E me transformei numa típica dona-de-casa, situação muito transgressora, pois mudei radicalmente e mudanças radicais só são aceitas por mulheres independentes. Portanto, tudo certo.
E ele foi ficando áspero comigo. Não me trazia mais flores, nem dizia elogios, só quando eu dava algo em troca.
Aquela relação estava se degradando e eu, uma mulher independente, não poderia ficar de braços cruzados.
Numa noite, esperando que ele chegasse do trabalho, preparei um jantar, comprei vinho, rosas, perfumei a casa e a nossa cama.
Ele entrou, eu fui recebê-lo e receb, em troca, uma bordoada bem no meio da cara. E decedi que, independente de qualquer coisa, aquele era o meu lugar.
Fiz uma poupança com a grana que juntei dos 14 aos 18 anos e consegui comprar um carro no dia do meu aniversário de 19 anos. Era o símbolo da independência. Mas eu queria mais.
Ingressei na faculdade, mas continuei trabalhando e, agora, ganhando um pouco melhor. Aos 20 anos atingi o ápice da subsistência para uma recém-saída da adolescência: fui morar sozinha. E totalmente auto-suficiente. Aluguel, internet, água, luz, telefone: tudo por minha conta e risco. Mas eu queria mais. Me sentia vazia e inútil, por vezes, só. Ainda que cercada de gente, só.
E veio a depressão. Cheguei a achar que era isso o que faltava para que eu chegasse a plenitude da independência. Afinal, uma mulher independente tem problemas que precisa resolver sozinha, sofre pressões, passa por estresse, que culminam em depressão.
Mas eu queria mais.
Um dia tomei várias cartelas de calmantes e deitei. Tudo ficou preto e, depois, azul. E senti uma paz. Acordei, vomitei e fui passear. Foi então que eu o encontrei. Da troca de olhares para a cama foi um piscar de olhos, afinal, eu era uma mulher independente e bem resolvida, e deveria sanar minhas vontades sem sentir culpa. Começamos a namorar e decidi chamá-lo para morar comigo, situação aceita apenas por mulheres independentes. A maioria quer casar, véu, grinalda e toda pompa e circunstância. Mas eu, não.
Aos poucos fui gastando cada vez mais tempo na cozinha do que na academia, mais tempo lavando e passando roupa do que indo ao cinema, mais tempo varrendo a casa do que trabalhando fora. E me transformei numa típica dona-de-casa, situação muito transgressora, pois mudei radicalmente e mudanças radicais só são aceitas por mulheres independentes. Portanto, tudo certo.
E ele foi ficando áspero comigo. Não me trazia mais flores, nem dizia elogios, só quando eu dava algo em troca.
Aquela relação estava se degradando e eu, uma mulher independente, não poderia ficar de braços cruzados.
Numa noite, esperando que ele chegasse do trabalho, preparei um jantar, comprei vinho, rosas, perfumei a casa e a nossa cama.
Ele entrou, eu fui recebê-lo e receb, em troca, uma bordoada bem no meio da cara. E decedi que, independente de qualquer coisa, aquele era o meu lugar.
Quarta-feira, 7 de Maio de 2008
TiMano
Torcer para o Corinthians representa diversos sentimentos distintos. O mais interessante deles é a angústia. O time foi para a 2ª divisão no Brasileirão, não classificou para a final do Paulista — e o Palmeiras acabou levando o caneco — mas tem mostrado serviço na Copa do Brasil, que garante vaga na Libertadores (ai ai, nem quero pensar!).
Na quarta passada, o Todo Poderoso Timão saiu da UTI. Ganhou um jogo no qual finalizar e, de preferência balançando as redes do Morumbi, era obrigatório. Não adiantava jogar fechado, coisa que o time manda bem, já que o setor defensivo não é problema. Tinha que jogar prá fazer gol. Mas o Timão não tem ataque e isso obviamente já está sendo modificado. Coringão ensacou o Goiás por 4 X 0.
E apesar de eu achar técnico de futebol "liso" prá caramba, Mano reafirmou a idéia de que era preciso melhorar a auto-estima dos jogadores (em especial Herrera, Lulinha — que eu detesto — e Acosta ou Lula Molusco). Deu certo.
Ontem, contra o Azulão o TiMano colocou a bola no gol duas vezes. O autor? Herrera. Continuamos na Copa do Brasil e em uma situação confortável, por enquanto. Sim, porque o Timão nos coloca em apuros direto...Não vou ficar citando, mas lembro de um x número de vezes em que não havia mais esperança, o time tava na lama, na merda, no esgoto e se reergueu. É isso que tem acontecido nos últimos dias, é isso que vai acontecer na série B do Brasileiro, espero.
Tenho orgulho de ser corintiana. Desculpe, eu mereci!
Na quarta passada, o Todo Poderoso Timão saiu da UTI. Ganhou um jogo no qual finalizar e, de preferência balançando as redes do Morumbi, era obrigatório. Não adiantava jogar fechado, coisa que o time manda bem, já que o setor defensivo não é problema. Tinha que jogar prá fazer gol. Mas o Timão não tem ataque e isso obviamente já está sendo modificado. Coringão ensacou o Goiás por 4 X 0.
E apesar de eu achar técnico de futebol "liso" prá caramba, Mano reafirmou a idéia de que era preciso melhorar a auto-estima dos jogadores (em especial Herrera, Lulinha — que eu detesto — e Acosta ou Lula Molusco). Deu certo.
Ontem, contra o Azulão o TiMano colocou a bola no gol duas vezes. O autor? Herrera. Continuamos na Copa do Brasil e em uma situação confortável, por enquanto. Sim, porque o Timão nos coloca em apuros direto...Não vou ficar citando, mas lembro de um x número de vezes em que não havia mais esperança, o time tava na lama, na merda, no esgoto e se reergueu. É isso que tem acontecido nos últimos dias, é isso que vai acontecer na série B do Brasileiro, espero.
Tenho orgulho de ser corintiana. Desculpe, eu mereci!
Quarta-feira, 30 de Abril de 2008
O homem que espirrava
Ele estava ali, bem perto de mim. Entre nós apenas o poste que sustenta o semáforo. Aguardamos o sinal do pedestre, quando ele deu o primeiro espirro. DDesejei-lhe saúde; ele consentiu com um gesto cordial. Espirrou mais uma vez. E depois desse, vieram mais outros.
Quando atingiu a incrível marca do 18º espirro consecutivo, não suportou: pulou na frente de um ônibus que vinha descendo a avenida em alta velocidade e pôs fim ao seu sofrimento.
É por isso que eu digo: o espirro pode matar.
Quando atingiu a incrível marca do 18º espirro consecutivo, não suportou: pulou na frente de um ônibus que vinha descendo a avenida em alta velocidade e pôs fim ao seu sofrimento.
É por isso que eu digo: o espirro pode matar.
Terça-feira, 4 de Março de 2008
Como não se comportar em uma entrevista - Parte 3
A proposta era uma coisa de louco: você tinha que desenhar uma de suas mãos de forma que a mão traçada fosse a que você costumava usar para escrever. Parece confuso? Quem fosse canhoto, deveria usar a mão direita para desenhar e vice-versa.
Em seguida, em cada um dos dedos você deveria colocar uma qualidade e no dedão, um defeito. Na palma da mão deveria ser escrito como você se projeta daqui cinco anos (isso é uma bosta! eu lá sei se estarei viva daqui cinco anos! Posso estar vendendo pastel na Riviera Francesa...será que eles comem pastel lá?). Assim foi feito. É lógico que eu não consegui terminar, mas a psicóloga, que nesse caso era uma mocinha muito simpática, tirou a bic da minha mão. Cada um deveria apresentar o que escreveu. Queria dizer logo e acabar com aquele circo todo, mas tive que aguardar minha vez. Eis que uma mulher (sim, ela não era mais uma garotinha de 19 anos) diz uma de suas qualidades ser a humildade. "Olha, sou muito humilde". Gente, pára tudo! Humildade não é qualidade, é conduta. Ninguém diz que é humilde e sim prova pelas atitudes. A única coisa que ela provou foi que a modéstia passou longe e que a prepotência estava logo ali. Olhei para ela, em seguida para as psicólogas que assitiam a explanação. Elas estavam com os olhos arregalados e escreveram algo na prancheta. Provavelmente "essa humilde tá fora". Tive vontade de rir, mas em seguida de chorar. Respirei fundo.
Não contente, mais uma surpresa me aguardava. Um outro candidato diz que um de seus defeitos é ser perfeccionista. D-U-V-I-D-O! Ele devia ter dito que o defeito dele é ser burro. Olhei prá baixo, respirei novamente. Quer dizer que fazer seu trabalho com esmero, cautela e dedicação é defeito. Ai, que burro, dá zero prá ele! Isso mostra apenas que o ser não tem discernimento de suas próprias fraquezas e nada de autocrítica.
Eu, particularmente, me saio melhor falando dos defeitos do que das qualidades. E sempre acho que meus defeitos são qualidades, depende apenas do ponto de vista. No caso, disse que era cabeça-dura, não sabia lidar com frustração, imatura (mas sempre disposta a mudar!) e implicante. Além disso, disse que não saberia planejar o que seria daqui cinco anos. Será que vou passar?
Em seguida, em cada um dos dedos você deveria colocar uma qualidade e no dedão, um defeito. Na palma da mão deveria ser escrito como você se projeta daqui cinco anos (isso é uma bosta! eu lá sei se estarei viva daqui cinco anos! Posso estar vendendo pastel na Riviera Francesa...será que eles comem pastel lá?). Assim foi feito. É lógico que eu não consegui terminar, mas a psicóloga, que nesse caso era uma mocinha muito simpática, tirou a bic da minha mão. Cada um deveria apresentar o que escreveu. Queria dizer logo e acabar com aquele circo todo, mas tive que aguardar minha vez. Eis que uma mulher (sim, ela não era mais uma garotinha de 19 anos) diz uma de suas qualidades ser a humildade. "Olha, sou muito humilde". Gente, pára tudo! Humildade não é qualidade, é conduta. Ninguém diz que é humilde e sim prova pelas atitudes. A única coisa que ela provou foi que a modéstia passou longe e que a prepotência estava logo ali. Olhei para ela, em seguida para as psicólogas que assitiam a explanação. Elas estavam com os olhos arregalados e escreveram algo na prancheta. Provavelmente "essa humilde tá fora". Tive vontade de rir, mas em seguida de chorar. Respirei fundo.
Não contente, mais uma surpresa me aguardava. Um outro candidato diz que um de seus defeitos é ser perfeccionista. D-U-V-I-D-O! Ele devia ter dito que o defeito dele é ser burro. Olhei prá baixo, respirei novamente. Quer dizer que fazer seu trabalho com esmero, cautela e dedicação é defeito. Ai, que burro, dá zero prá ele! Isso mostra apenas que o ser não tem discernimento de suas próprias fraquezas e nada de autocrítica.
Eu, particularmente, me saio melhor falando dos defeitos do que das qualidades. E sempre acho que meus defeitos são qualidades, depende apenas do ponto de vista. No caso, disse que era cabeça-dura, não sabia lidar com frustração, imatura (mas sempre disposta a mudar!) e implicante. Além disso, disse que não saberia planejar o que seria daqui cinco anos. Será que vou passar?
Quinta-feira, 13 de Dezembro de 2007
Con(v)ivência
Eles estavam muito sem paciência um com o outro. A relação de sabe-se lá quanto tempo dava sinais de desgate. Ela não se lembrava mais de como tudo havia começado. Ele, nem ligava.
Não conversavam mais amenidades como antes, tampouco coisas sérias. Ficavam horas um ao lado do outro, sem dizer uma palavra sequer. Mas não era um silêncio cúmplice. Era puro desgosto.
Nos últimos meses não dividiam mais seus dias, suas minúcias, apenas o cigarro e o pacote de bolachas água e sal, que ele adorava e ela simplesmente não via a menor graça. Mas comia. A convivência estraga a paixão e assassina qualquer tipo de sentimento que se aproxime do amor.
Um dia ela acordou, olhou para o lado: vazio. Sentiu um alívio. Suspirou e levantou. Foi à sala e o encontrou vendo TV com os pés no sofá, prática que ela — como boa virginiana — abominava, ainda mais nele. Olhou por alguns minutos a cena. Ele esboçou algumas palavras, mas não passaram de rascunho para ela. Sentiu-se tão infeliz naquele momento. Pegou a bolsa, fez um aceno com a mão esquerda e disse que ia comprar cigarros. Nunca mais voltou.
Não conversavam mais amenidades como antes, tampouco coisas sérias. Ficavam horas um ao lado do outro, sem dizer uma palavra sequer. Mas não era um silêncio cúmplice. Era puro desgosto.
Nos últimos meses não dividiam mais seus dias, suas minúcias, apenas o cigarro e o pacote de bolachas água e sal, que ele adorava e ela simplesmente não via a menor graça. Mas comia. A convivência estraga a paixão e assassina qualquer tipo de sentimento que se aproxime do amor.
Um dia ela acordou, olhou para o lado: vazio. Sentiu um alívio. Suspirou e levantou. Foi à sala e o encontrou vendo TV com os pés no sofá, prática que ela — como boa virginiana — abominava, ainda mais nele. Olhou por alguns minutos a cena. Ele esboçou algumas palavras, mas não passaram de rascunho para ela. Sentiu-se tão infeliz naquele momento. Pegou a bolsa, fez um aceno com a mão esquerda e disse que ia comprar cigarros. Nunca mais voltou.
Assinar:
Postagens (Atom)